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Rasgando o véu, construindo sonhos: o PSOL e as utopias de um novo mundo! Imprimir E-mail
Escrito por Helena Martins   
Dom, 29 de Agosto de 2010 15:47

Por Raquel Maria Rigotto

Meu trabalho de ensino, pesquisa e extensão tem me aberto oportunidades de conhecer e ouvir indígenas, marisqueiras, operários das novas fábricas de calçados ou do agronegócio, pescadores, moradores do entorno de viveiros de carcinicultura e de fábricas de veneno, além de ambientalistas, lideranças de movimentos sociais, entre outros.

São “povos” que nem sempre a gente vê, porque embora componham a maioria, muitas vezes são invisibilizados. Foi junto a eles que rasguei o véu do desenvolvimento: no agudo contraste entre o alarde do discurso oficial e a tristeza dos olhos, os corpos adoecidos (ou as estatísticas, se preferirem!) dos atingidos (e não “contemplados”!) por projetos de desenvolvimento destes governos.

Fui vendo que eles têm que deixar seus quintais e sua terra e seus vizinhos para dar lugar a um porto e agora a uma (ou três?) termelétrica a carvão mineral, como acontece no Pecém – utilidade pública é o argumento para a desapropriação! Ou para dar lugar a mais 4 mil hectares de melão transnacional, como estão fazendo no Tabuleiro de Russas e já fizeram  na Chapada do Apodi – que vão ser cultivados apenas enquanto o preço no mercado internacional estiver garantindo bons lucros, ou  até que a terra se exaura e pare de produzir. O mesmo se repete com os grandes resorts que recolonizam nossas praias, potencializados em sua capacidade de destruição; com a monocultura do vento a que se reduziu o programa de energia eólica; com a repartição desigual da água da transposição do rio São Francisco; com a criação de camarão ou com o projeto do estaleiro…

Ao contrário do discurso oficial alardeando progresso, indicadores de crescimento econômico, geração de emprego, felicidade para todos, o que vemos é a produção da fome e da sede, porque o acesso à terra e à água é roubado, gerando a insegurança alimentar e de futuro. Vemos a contaminação da água, do ar e do solo por agrotóxicos despejados de avião ou por toneladas de poluentes que serão gerados no Pecém, trazendo chuva ácida para além de Fortaleza. Vemos intoxicações, cânceres, acidentes e tantas doenças. Vemos a migração para a cidade e a desestruturação das famílias, os perigos de subordinação à droga e à prostituição rondando a juventude, a desarticulação das redes sociais e comunitárias, a depressão e o suicídio.

Cinicamente, os promotores deste modelo fingem não perceber (e ocultam!) este ciclo perverso que gera os problemas urbanos hoje, para onde já foi empurrada a maioria dos brasileiros, para viver mal, com medo e infeliz. Especialmente nas grandes cidades e regiões metropolitanas. Não há de ser o bolsa-família que vai dar jeito nisto!

Que desenvolvimento é este? Como tem apontado Soraya, os cearenses seguem sem saneamento e com baixa escolaridade, depois de tantos anos de PIB lá em cima! Além de não serem beneficiados, ficam com a maior parte dos impactos negativos, como desvela a Rede Brasileira de Justiça Ambiental.

Mas estes olhares de quem vai rasgando o véu do desenvolvimento surpreendem, talvez até assustem as outras pessoas. ‘Nunca havia pensado nisto! Bando de loucos e loucas? Utópicos?’

Sim e não! Apenas estamos olhando debaixo do tapete… e vendo claramente que esse modelo de desenvolvimento não nos serve. O lucro de poucos não pode estar acima da Vida. Nem as Pessoas, nem a Natureza são mercadoria!

Grandes corporações econômicas, governos e mídia vêm difundindo estas idéias em nossa cabeça o tempo todo. É esta a ideologia do desenvolvimento: produzir e consumir é o sentido da experiência humana no Planeta Terra – sentido a serviço do poder. Trabalhar para eles e comprar… Você concorda com isso? Você aceita que nasceu aqui para isso?!

Mas estes são apenas os argumentos de legitimação deste modelo, para ganhar o nosso apoio e adesão. Eles não podem dizer, é claro, que estão adorando esta farra de fazer do Brasil – país com uma das maiores áreas e biodiversidade e população do mundo (= oferta de mão de obra barata e de consumidores), um quintal seu para degradar a terra, exportar a água contida nas commodities; explorar, contaminar e destruir os ecossistemas e os trabalhadores e as comunidades; usar os recursos dos bancos públicos como BNDES e BNB e contar com os descontos das isenções fiscais; saber que terá o beneplácito de que as leis e políticas públicas de proteção do trabalho, da saúde e do meio ambiente, por exemplo, eternamente “ainda não estão funcionando a contento”; ou de que as lideranças contrárias podem ser impunemente assassinadas, ou de que os cientistas que ponham o dedo nas feridas serão perseguidos…

Estamos num momento muito confortável para discutir, quando nos chamam de utópicos e utópicas. Primeiro porque sonhar – ou enxergar outro mundo de longe, e desejá-lo! – certamente é um dos atributos humanos mais nobres, bem além do idiotizante produzir para o capital e comprar – como qualificou Renato Roseno. E também porque as evidências de que o modelo de desenvolvimento deles é que é inviável estão cada vez mais fartas e fortes e difundidas – esgotamento de estoques pesqueiros, aquecimento global e a escalada crescente de desigualdade e violência são algumas das provas mais conhecidas, infelizmente somadas à infelicidade.

Não vou negar que esta consciência é dolorosa e indignante. Mas certamente o sofrimento que ela pode gerar em nós é menor do que o de viver no lugar aviltante que o capitalismo nos oferece – ajudá-lo a lucrar vendendo nossa força de trabalho e nos empenhando em consumir tudo o que divulgam. Esta é uma consciência que possibilita o privilégio de ter um sentido dado por você à sua vida. Sentido que transcende a porção de universo reunida em seu corpo, neste tempo e espaço, e lhe coloca numa rede de sintonia com a Vida.

O toque de maravilhoso no processo de rasgar o véu é reabrir os olhos e ver ao seu lado camaradas tão “louc@s” ou “utópic@s” quanto você! Ou livres – porque poder gerir autônoma e solidariamente sua consciência, sua existência e sua forma de inserção no mundo, é uma dimensão fascinante da liberdade.

É isso que encontrei em Soraya, em João Alfredo, no Renato, e nos coletivos do PSOL. Regado com coragem de afirmar diferenças e divergências, capacidade de dialogar com saberes diversos, militância competente e prazerosa, coerência entre o que pensa-sente-fala-faz. Com a alegria que nasce aí, eles estão inventando uma nova Política, capaz de soprar para lá nossas tantas decepções, mexer com nosso comodismo e nos oferecer espaços de práticas de vida-trabalho-militância-identidade-ética cheios de significado e riqueza humana.

Obrigada, Soraya, por sua lucidez e sensibilidade para ler este mundo, sua criatividade e ternura ao compartilhar conosco sua sabedoria, por sua competência e generosidade em alimentar a construção desta comunidade de aprendizagem que é a política libertária, por estes tantos anos de presença firme e solidária junto a estes povos do Ceará atingidos pelo modelo de desenvolvimento;

Obrigada, João Alfredo, por ter feito tão precocemente a ponte entre a questão social e a questão ambiental, nos convidando a romper com um ambientalismo ingênuo; por suas três décadas de ficha limpa na vida pública; pela coragem de fazer, no momento certo, a opção certa entre oportunismo e Política;

Obrigada, Renato, por disponibilizar seus tantos talentos em benefício desta causa; pela energia vibrante que transmite a toda esta tribo, e pela beleza de seu ser, que nos convida sempre a ser melhores;

Obrigada, Marilene, por estar fazendo esta tão necessária ponte com os servidores públicos;

Obrigada, Plínio, por testemunhar, com a força de seus 80 anos de vida coerente, que é dest@s louc@s e utópic@s que, mais do que nunca, precisamos hoje!

Além de tudo isso, obrigada também por nos darem a opção de votar com tanta confiança, e sem nenhum constrangimento! Nulo será o meu voto quando não houver um Partido como o PSOL é hoje.

Vamos, erga sua mão e rasgue o que porventura ainda há de véu em seus olhos.

Venha ser livre e ecosocialista com a gente!

“Vamos lá fazer o que será!”

 

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